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Antes do Holofote · Semana 03

Carolina Maria de Jesus escreveu vinte cadernos catando papel. Lima Barreto pagou a própria edição. O texto veio antes do leitor.

Quatro escritores brasileiros que escreveram muito antes de alguém aceitar publicar. Carolina Maria de Jesus escreveu vinte diários em cadernos achados no lixo; Lima Barreto foi preterido três vezes na Academia Brasileira de Letras e pagou do próprio bolso a edição de Policarpo Quaresma; Conceição Evaristo publicou o primeiro romance aos 56 anos; Itamar Vieira Junior levou oito anos e dois livros pouco notados antes de Torto Arado.

Antes do HolofoteQuatro perfisCom fontes
Lamin NgobehApresentador e fundador, Fica com Deus 6 min de leitura

A resposta curta

Carolina Maria de Jesus, Lima Barreto, Conceição Evaristo e Itamar Vieira Junior tinham obra pronta antes de existir leitor. Carolina morava na favela do Canindé, em São Paulo, catava papel para sustentar três filhos e escreveu vinte diários entre 1955 e 1960 em cadernos achados no lixo; o jornalista Audálio Dantas encontrou os cadernos numa reportagem em 1958, e Quarto de Despejo saiu em 1960. Lima Barreto foi preterido três vezes na Academia Brasileira de Letras, publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma em folhetim em 1911 e pagou do próprio bolso a edição em livro quatro anos depois; boa parte da obra dele só foi publicada entre os anos 1940 e 1950, décadas após a morte. Conceição Evaristo trabalhou como empregada doméstica até 1971 e publicou o primeiro romance, Ponciá Vicêncio, em 2003. Itamar Vieira Junior publicou dois livros pouco notados antes de Torto Arado levar o Jabuti e o Oceanos em 2020.

Antes do holofote

Antes do primeiro leitor existir, já existia o texto.

Às vezes por décadas, às vezes em cadernos catados no lixo. A história literária brasileira tem o hábito de datar um escritor pelo ano em que uma editora disse sim — o que é a data do mercado, não a data do trabalho.

Quatro escritores. Quatro provas com data de que a obra veio antes do reconhecimento. Cada um prova a demora por um caminho diferente: o volume que ninguém leu, a porta que se fechou três vezes, a idade em que finalmente saiu o primeiro romance, e a subida lenta ao longo de três livros.

As quatro pistas

Quatro pessoas, quatro pistas com data.

20cadernos

Carolina Maria de Jesus

O trabalho que ninguém viu

Morava na favela do Canindé, em São Paulo, e catava papel para sustentar três filhos. Escreveu vinte diários entre 1955 e 1960 em cadernos achados no lixo. Em 1958 o jornalista Audálio Dantas encontrou os cadernos numa reportagem.

Quarto de Despejo saiu em 1960 e foi traduzido para mais de dez idiomas. O texto já estava pronto havia cinco anos — faltava alguém abrir o caderno.

Fontes: CartaCapital · pt.org.br · Quero Bolsa

3recusas

Lima Barreto

A porta que se fechou

Foi preterido três vezes na Academia Brasileira de Letras e deixado de fora pela crítica oficial. Publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma em folhetim em 1911 e pagou do próprio bolso a edição em livro, quatro anos depois. Morreu em 1922.

Boa parte da obra dele — Diário Íntimo, Cemitério dos Vivos — só foi publicada entre os anos 1940 e 1950, décadas depois da morte, a partir das pesquisas de Francisco de Assis Barbosa.

Fontes: Vermelho · Clube do Português · Wikipedia

56anos

Conceição Evaristo

A estreia tardia

Trabalhou como empregada doméstica até 1971, quando concluiu o ensino médio. Depois veio a graduação na UFRJ, o mestrado na PUC-Rio a partir de 1992 e o doutorado na UFF. O primeiro romance, Ponciá Vicêncio, saiu em 2003.

Ela não começou a escrever aos 56. Começou a ser publicada aos 56.

Fontes: Enciclopédia Itaú Cultural · Português.com.br · Elfi Kurten Fenske

8anos

Itamar Vieira Junior

A subida lenta

Geógrafo e servidor do INCRA, publicou os contos de Dias em 2012 e A Oração do Carrasco em 2017 sem grande repercussão. Torto Arado venceu o Prémio LeYa em 2018, saiu no Brasil em 2019 e levou o Jabuti e o Oceanos em 2020.

Torto Arado não foi o primeiro livro dele. Foi o terceiro — e o primeiro que o país leu.

Fontes: Wikipedia · Wikipédia · Todavia

O padrão

Antes do Holofote

Quatro obras, uma espera

Cada um prova a demora por um caminho diferente: o volume de trabalho que ninguém leu, a porta que se fechou três vezes, a idade em que finalmente saiu o primeiro romance, e a subida lenta ao longo de três livros. Não é a mesma história quatro vezes. O texto estava pronto antes do leitor existir.

O que isso quer dizer

Escrever é antes de publicar

Carolina escreveu vinte cadernos sem contrato. Lima Barreto pagou a própria edição. O trabalho não espera permissão para começar — só para ser visto. Essa é a distinção que a palavra estreia apaga toda vez que aparece num release.

Vale reparar em quem estava do outro lado da porta nessas quatro histórias. Em três delas, a demora não é sobre qualidade: é sobre quem tinha acesso a editora, a crítica e a academia. A obra chegou primeiro; o acesso chegou depois.

Faça hoje

Separe o que está pronto do que está esperando permissão. São duas pilhas diferentes, e a segunda costuma ser menor do que parece quando você olha de frente.

Fontes

De onde veio cada data.

  1. Carolina Maria de Jesus, a catadora de letras CartaCapital · s.d.
  2. Carolina Maria de Jesus, catadora de papel e palavras pt.org.br · s.d.
  3. Quarto de Despejo Quero Bolsa · s.d.
  4. 145 anos de Lima Barreto, o triste visionário que explicou o Brasil Vermelho · s.d.
  5. Lima Barreto Clube do Português · s.d.
  6. Triste Fim de Policarpo Quaresma Wikipedia · s.d.
  7. Conceição Evaristo Enciclopédia Itaú Cultural · s.d.
  8. Conceição Evaristo Português.com.br · s.d.
  9. Conceição Evaristo Elfi Kurten Fenske · 2015
  10. Itamar Vieira Junior Wikipedia · s.d.
  11. Torto Arado Wikipédia · s.d.
  12. Torto Arado Todavia · s.d.

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