A resposta curta
Carolina Maria de Jesus, Lima Barreto, Conceição Evaristo e Itamar Vieira Junior tinham obra pronta antes de existir leitor. Carolina morava na favela do Canindé, em São Paulo, catava papel para sustentar três filhos e escreveu vinte diários entre 1955 e 1960 em cadernos achados no lixo; o jornalista Audálio Dantas encontrou os cadernos numa reportagem em 1958, e Quarto de Despejo saiu em 1960. Lima Barreto foi preterido três vezes na Academia Brasileira de Letras, publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma em folhetim em 1911 e pagou do próprio bolso a edição em livro quatro anos depois; boa parte da obra dele só foi publicada entre os anos 1940 e 1950, décadas após a morte. Conceição Evaristo trabalhou como empregada doméstica até 1971 e publicou o primeiro romance, Ponciá Vicêncio, em 2003. Itamar Vieira Junior publicou dois livros pouco notados antes de Torto Arado levar o Jabuti e o Oceanos em 2020.
Antes do holofote
Antes do primeiro leitor existir, já existia o texto.
Às vezes por décadas, às vezes em cadernos catados no lixo. A história literária brasileira tem o hábito de datar um escritor pelo ano em que uma editora disse sim — o que é a data do mercado, não a data do trabalho.
Quatro escritores. Quatro provas com data de que a obra veio antes do reconhecimento. Cada um prova a demora por um caminho diferente: o volume que ninguém leu, a porta que se fechou três vezes, a idade em que finalmente saiu o primeiro romance, e a subida lenta ao longo de três livros.
As quatro pistas
Quatro pessoas, quatro pistas com data.
Carolina Maria de Jesus
O trabalho que ninguém viu
Morava na favela do Canindé, em São Paulo, e catava papel para sustentar três filhos. Escreveu vinte diários entre 1955 e 1960 em cadernos achados no lixo. Em 1958 o jornalista Audálio Dantas encontrou os cadernos numa reportagem.
Quarto de Despejo saiu em 1960 e foi traduzido para mais de dez idiomas. O texto já estava pronto havia cinco anos — faltava alguém abrir o caderno.
Fontes: CartaCapital · pt.org.br · Quero Bolsa
Lima Barreto
A porta que se fechou
Foi preterido três vezes na Academia Brasileira de Letras e deixado de fora pela crítica oficial. Publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma em folhetim em 1911 e pagou do próprio bolso a edição em livro, quatro anos depois. Morreu em 1922.
Boa parte da obra dele — Diário Íntimo, Cemitério dos Vivos — só foi publicada entre os anos 1940 e 1950, décadas depois da morte, a partir das pesquisas de Francisco de Assis Barbosa.
Fontes: Vermelho · Clube do Português · Wikipedia
Conceição Evaristo
A estreia tardia
Trabalhou como empregada doméstica até 1971, quando concluiu o ensino médio. Depois veio a graduação na UFRJ, o mestrado na PUC-Rio a partir de 1992 e o doutorado na UFF. O primeiro romance, Ponciá Vicêncio, saiu em 2003.
Ela não começou a escrever aos 56. Começou a ser publicada aos 56.
Fontes: Enciclopédia Itaú Cultural · Português.com.br · Elfi Kurten Fenske
Itamar Vieira Junior
A subida lenta
Geógrafo e servidor do INCRA, publicou os contos de Dias em 2012 e A Oração do Carrasco em 2017 sem grande repercussão. Torto Arado venceu o Prémio LeYa em 2018, saiu no Brasil em 2019 e levou o Jabuti e o Oceanos em 2020.
Torto Arado não foi o primeiro livro dele. Foi o terceiro — e o primeiro que o país leu.
O padrão
Antes do Holofote
Quatro obras, uma espera
Cada um prova a demora por um caminho diferente: o volume de trabalho que ninguém leu, a porta que se fechou três vezes, a idade em que finalmente saiu o primeiro romance, e a subida lenta ao longo de três livros. Não é a mesma história quatro vezes. O texto estava pronto antes do leitor existir.
O que isso quer dizer
Escrever é antes de publicar
Carolina escreveu vinte cadernos sem contrato. Lima Barreto pagou a própria edição. O trabalho não espera permissão para começar — só para ser visto. Essa é a distinção que a palavra estreia apaga toda vez que aparece num release.
Vale reparar em quem estava do outro lado da porta nessas quatro histórias. Em três delas, a demora não é sobre qualidade: é sobre quem tinha acesso a editora, a crítica e a academia. A obra chegou primeiro; o acesso chegou depois.
Separe o que está pronto do que está esperando permissão. São duas pilhas diferentes, e a segunda costuma ser menor do que parece quando você olha de frente.
Fontes
De onde veio cada data.
- Carolina Maria de Jesus, a catadora de letras CartaCapital · s.d.
- Carolina Maria de Jesus, catadora de papel e palavras pt.org.br · s.d.
- Quarto de Despejo Quero Bolsa · s.d.
- 145 anos de Lima Barreto, o triste visionário que explicou o Brasil Vermelho · s.d.
- Lima Barreto Clube do Português · s.d.
- Triste Fim de Policarpo Quaresma Wikipedia · s.d.
- Conceição Evaristo Enciclopédia Itaú Cultural · s.d.
- Conceição Evaristo Português.com.br · s.d.
- Conceição Evaristo Elfi Kurten Fenske · 2015
- Itamar Vieira Junior Wikipedia · s.d.
- Torto Arado Wikipédia · s.d.
- Torto Arado Todavia · s.d.
Entre para a comunidade Fica com Deus.
Você já está aqui — agora entre na lista de espera. A história da semana no seu e-mail e a porta aberta para os encontros da comunidade: online, ao vivo e presenciais no Rio.
Continue